sábado, 3 de outubro de 2015

A reação ao documento 'Por um Brasil Justo e Democrático'

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O Jornal de todos Brasis
A reação neoliberal ao documento 'Por um Brasil Justo e Democrático', por J. Carlos de Assis
Leio no Estadão de São Paulo comentário que reproduz um libelo do economista José Luís Oreiro contra os economistas que subscreveram o documento organizado pela Fundação Perseu Abramo, do PT, sobre a conjuntura e as perspectivas brasileiras. O documento critica fortemente o ajuste fiscal de Joaquim Levy. Oreiro o defende. O documento se filia ao  pensamento social-desenvolvimentista. Oreiro se diz novo desenvolvimentista. O documento pede uma nova política econômica. Oreiro pede o aprofundamento da atual.
Antes de entrar nas críticas de Oreiro, eventualmente insultuosas e mal educadas contra seus colegas economistas, devo esclarecer que não fui convidado para subscrever o documento, não sou do PT nem integrante do grupo que o lançou. Isso me dá certo grau de imparcialidade para fazer a crítica da crítica. Antes de mais nada, porém, é preciso esclarecer a terminologia: Oreiro não tem nada de desenvolvimentista, nem de novo. É um neoliberal, um fiscalista arraigado, à antiga. Vê a economia sob a ótica da estatística, ignorando sua dinâmica. Se não fosse assim não teria espaço no Estadão.
O comentário do Estadão, assinado por Fernando Dantas, resume bem a proposta do documento da Perseu Abramo em relação à política econômica. É necessário eliminar o ajuste fiscal e retomar os gastos públicos, com juros baixos, para que haja a recuperação do emprego, do PIB e da receita pública, o que redundará, em última instância, em queda, e não aumento da relação dívida PIB. Isso é uma receita keynesiana simples, da qual deveriam ter conhecimento todos os membros da Associação Keynesiana Brasileira, notadamente Oreiro.
Na sua crítica ao documento, permeada de citações em inglês totalmente desnecessárias  mas que devem ter algum propósito oculto de acentuar o brilho de quem fala, Oreiro aponta a "irresponsabilidade" das propostas sob o argumento de que a taxa de juros de longo prazo dispararia, assim como a inflação, na medida em que estourem os limites fiscais. No seu entender, o certo é continuar com o ajuste de forma a restaurar a "confiança" dos empresários na economia para que voltem a investir. E aí tudo estaria resolvido.
Não vou perder muito tempo analisando o pensamento equivocado de Oreiro. Vou me concentrar numa única palavra, um conceito: "confiança". Esse mantra se tornou o esteio das recomendações de política dos neoliberais  com o propósito deliberado de destronar o keynesianismo que reinou soberano desde o pós-guerra aos anos 70. Os antikeynesianos, temendo o crescimento do Estado e a eventual  expansão da carga tributária dos ricos, desenvolveram a chamada teoria das expectativas racionais, ancorando a economia em aspectos psicológicos, dos quais "a confiança" dos empresários é peça fundamental.
Entretanto, o que é "confiança"? Para Keynes, a questão não era tanto de confiança, mas de demanda efetiva. Este conceito corresponde a uma situação concreta. Já confiança é um aspecto psicológico. E esse aspecto psicológico é fortemente influenciado pelo estado da economia. Em outras palavras, pela demanda efetiva. Então "confiança" e demanda efetiva é a mesma coisa. No curso de uma recessão, um empresário só voltará a ter confiança na economia e recomeçar a investir se houver perspectiva de aumento da demanda efetiva.
Já na concepção dos neoliberais, velhos ortodoxos e agora novos keynesianas  a destruição da demanda, mediante uma política radical de ajuste fiscal, como a atual, é o caminho para restaurar a "confiança" do empresariado. Se isso pudesse funcionar de alguma forma a Europa do euro já estaria em plena recuperação, e não mergulhada numa tremenda recessão e mesmo depressão resultantes de ajustes fiscais. O que os empresários europeus estão fazendo, em lugar de restaurar sua "confiança" nas economias ajustadas, é pegar o caminho do aeroporto e buscar outras alternativas de investimento no mundo globalizado.
Por outro lado, os países que meteram o pé no acelerador  fiscal e monetário estão conseguindo se recuperar, a começar pelos Estados Unidos, Inglaterra e Japão, entre outros que não estão sob as cadeias do euro. Nós também não temos essas cadeias e só mesmo a capitulação ideológica à arquitetura monetário-financeira anglo-saxônica, cujos ajustes querem que se apliquem a nós, porém não a eles, faz com que pessoas como Oureiro vociferem contra a busca de uma alternativa. Talvez digam, com Oreiro, que uma política monetário-fiscal independente estouraria o câmbio e os juros. Se for verdade, temos meios de administrar isso. Para que, afinal, temos quase 400 bilhões de dólares em reservas e um parceiro estratégico como a China?
J. Carlos de Assis - Economista, doutor pela Coppe/UFRJ, autor, entre outros livros de economia política, do recém lançado "Os Sete Mandamentos do Jornalismo Investigativo", Ed. Textonovo, SP.

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