segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Quando vai acabar a água do Cantareira e do Alto Tietê? Cenários, por Sérgio Reis


Para “celebrar” o 29º artigo a respeito da crise hídrica, resolvi montar um fluxograma para tentar explicar didaticamente aos leitores o futuro dos sistemas Cantareira e Alto Tietê. O fundamento desse exercício é basicamente a questão: nas condições atuais, até quando eles vão durar?
A maneira básica para estipular esse prazo se dá por meio de uma técnica chamada de “construção de cenários”. Em linhas gerais, trata-se de determinar, com base em algum critério razoável, como se comportarão determinadas variáveis consideradas importantes para a explicação do resultado que se está tentando prever.
Considerando-se a gravidade da crise hídrica e a validade do próprio argumento, exaustivamente empregado pelo Governo Alckmin, a respeito da excepcionalidade hidrológica e pluviométrica enfrentada, seria óbvio admitir como cenário possível (e, até mesmo, provável), a continuidade das condições atuais ao longo dos próximos meses. Isso é particularmente evidente quando notamos que não há, até o presente momento, elementos que nos forneçam indícios de que o futuro será radicalmente diferente.
No entanto, o “plano de contingência” delineado pela SABESP não fez isso. Pelo contrário, construiu 3 cenários e considerou, como o pior deles, a repetição da estiagem de 1953 (sendo os outros a própria média histórica e o equivalente a 50% dessa média, em todos os casos a partir das vazões de entrada de água). O problema é que, em 2014, observamos que a água que entra no sistema tem equivalido a apenas 44% desse pior ano. Se já faria pouco sentido não considerar o prolongamento desse contexto vigente como o mais plausível na confecção do planejamento, sequer considera-lo como um cenário a ser desenhado beira a mais absoluta irresponsabilidade.
Por óbvio, contudo, a razão para essa não admissão desse contexto nos cálculos (e apenas a sua utilização como retórica de defesa para justificar a crise) está, simplesmente, no fato de o governo não dispor de alternativas para o caso de a escassez permanecer. E não seria nada alentador, é claro, se a SABESP confessasse isso ou plotasse os dados desse cenário mais adverso em seus relatórios.
Para contribuir nesse sentido, resolvi montar dois fluxogramas: um para o Sistema Cantareira, outro para o Alto Tietê. Para o caso do Cantareira, o que fiz foi: 1) calcular, para o período considerado crítico do ponto de vista da estiagem (Janeiro-Outubro/2014) qual a relação percentual entre as vazões de entrada e as vazões médias históricas (22,43%); 2) utilizar o valor encontrado para estipular as vazões de entrada para os próximos meses, considerando-se esse referencial; 3) admitir a vazão média de saída de 22,5 m³/s (aproximadamente a atual, a partir da soma entre os 18 m³/s que vão para São Paulo – valor prometido pela SABESP – com os 4,5 m³/s enviados para as cidades da Bacia do PCJ – valor atual); 4) calcular o déficit diário e mensal, a partir das variáveis acima.
O resultado pode ser conferido abaixo:
Como é possível observar na figura, busquei considerar outras questões possíveis, como a eventual impossibilidade de extrair toda a 2ª cota do volume morto, ou a judicialização da questão a partir da extração da 3ª cota (que impedirá, nas condições atuais, o envio obrigatório de água para o PCJ), ou ainda a inviabilidade técnica de extração, na parte ou no todo, dessa 3ª cota. De todo modo, fica claro perceber que, mesmo que seja possível retirar toda a água restante no Sistema – sem qualquer óbice operacional –, notamos que o Cantareira duraria até 21 de Julho de 2015. A partir daí, ele estaria totalmente esgotado, e passaríamos a viver em uma situação ainda pior do que a observada, atualmente, para a cidade de Itu. Seria o caos completo para, pelo menos, 10 milhões de habitantes.
Dadas as crescentes dificuldades operacionais, contudo, é válido supor que o esgotamento (ou a inviabilidade da continuidade do abastecimento) ocorreria antes – talvez em Abril, quando o Sistema se encontraria, aproximadamente, com – 31% de sua capacidade operacional (o valor, em Abril de 2014, era de 15% positivo). Como sabemos, não parece o Governo dispor, pelo menos para daqui a 2 ou 3 anos, de alternativas capazes de compensar devidamente o esgotamento do Cantareira. O futuro, nesse cenário, é o da total e absoluta falta de água para todas as atividades humanas – das mais triviais e satisfacionais, até aquelas relacionadas à produção agrícola, comercial e industrial. O impacto disso sobre a vida em sociedade é incalculável.
No Alto Tietê, a situação ainda é incrivelmente mais dramática
Se a situação do Cantareira é apavorante, no Alto Tietê ela é nada menos do que indescritível. Para a construção do fluxograma abaixo, voltado a apresentar a continuidade do cenário atual, admitimos: 1) a continuidade das vazões atuais de saída, de cerca de 15 m³/s; 2) a manutenção dos padrões de déficit atuais (verificados, pelo menos, desde Julho, quando iniciei um monitoramento diário do Sistema) para as represas de Paraitinga e Ponte Nova (de cerca de 520 milhões de litros ao dia) e para as represas de Biritiba-Mirim, Jundiaí e Taiaçupeba (de cerca de 346,65 milhões de litros ao dia); 3) o cálculo dos déficits diárias, verificando-se o impacto deles nas reservas remanescentes das represas.
A confecção desse cenário resultou no seguinte fluxograma:
Notamos, então, que a extrema gravidade da situação do Alto Tietê pode ser percebida a partir do fato de que, mesmo que admitamos a completa extração dos volumes mortos de Biritiba-Mirim e de Jundiaí, o Sistema se esgota completamente em meados de Janeiro (no dia 15, de acordo com a simulação). Isso significa o fim do abastecimento para mais de 5 milhões de pessoas, em um prazo seis meses mais cedo do que o identificado para o Cantareira.
Vale dizer que a contabilidade dos volumes mortos sequer tem sido admitida pela SABESP, embora ela já esteja a pleno vapor, há várias semanas, no caso da represa de Biritiba (mais de 4 bilhões de litros já foram retirados). Os estudos, para esse sistema, são bem mais precários, de forma que temos muito menos noção de se, efetivamente, toda essa água situada abaixo dos níveis operacionais poderia ser, de fato, extraída. Qualquer imprevisto nessa condição significaria o desabastecimento já para Dezembro ou, até mesmo, para Novembro.
No caso do Sistema Cantareira, um Comitê Anticrise foi formado, a partir de iniciativa federal, e então forçou-se a gradativa redução da retirada de água dos seus reservatórios (hoje, as vazões de saída correspondem a pouco mais da metade das observadas em Janeiro, logo antes da criação do GTAG). No caso do Alto Tietê, sistema sobre o qual a ANA não possui qualquer interferência legal, a SABESP manteve as elevadíssimas vazões de saída – as quais foram irresponsavelmente autorizadas pelo DAEE em Fevereiro, quando a crise já era óbvia (conforme assinalou a recente – e indeferida – Ação Civil Pública protocolada pelo Ministério Público Estadual). A tragédia desse sistema, então, é a verbalização mais clara da gestão criminosa realizada pelo Governo do Estado de São Paulo.
Em síntese, a crise hídrica vai adquirindo proporções jamais imagináveis para qualquer um de nós mesmo há cerca de 6 meses, quando ela ganhou alguma publicidade. Suas consequências vão se tornando cada vez mais trágicas e tétricas para um público potencial de praticamente 10% da população brasileira. Mais do que nunca, levando-se em conta a completa inação do Governo Alckmin, será preciso que a sociedade – a Academia, as ONGs, os militantes e quem mais se dispuser – tome as rédeas do processo de tentativa de sua superação. A arrogância do governo tucano em lidar com o problema, como já aprendemos por mal, jamais poderá ser a sua solução, mas apenas um lastimável tapar de sol com a peneira – exatamente o contrário do que precisamos.
Os: Abaixo, deixei os links para todos os 28 artigos anteriores que publiquei aqui no Blog do Nassif e no Jornal GGN a respeito da crise hídrica. Conforme sabem os colegas mais assíduos, desde Abril eu tenho buscado informar, a partir de uma perspectiva crítica, a população, compartilhando minhas análises, estudos e achados. Pretendo continuar dando minha contribuição, sabendo, agora, que felizmente, muitos cidadãos igualmente indignados estão se articulando e produzindo conteúdos para que venhamos a refletir e agir sobre essa trágica crise.

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