quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Cabo-de-guerra sabota ação do BC

Luiz Sérgio Guimarães
Valor Econômico 08/10/2008

Todas as tentativas do Banco Central de ampliar a liquidez do mercado cambial e impedir a alta do dólar não deram resultado. Além das Medidas Provisórias anunciadas na segunda-feira, ontem o BC vendeu mais de US$ 2 bilhões no mercado futuro e, mesmo assim, o dólar fechou com valorização de 5,14%, cotado a R$ 2,3110. Apesar da escassez de crédito, o mercado não absorve por completo as linhas e os contratos oferecidos pelo BC. De US$ 2 bilhões em swaps cambiais colocados em leilão de manhã, o mercado comprou US$ 1, 359 bilhão. E da oferta de US$ 1 bilhão em linhas de crédito externas, o volume aceito foi de US$ 700 milhões. A recusa reflete o cabo-de-guerra travado atualmente entre "vendidos" e "comprados" nos vários segmentos do mercado de câmbio.

A maior parte das posições "vendidas" em derivativos futuros está sendo carregada por bancos. Com a disparada do dólar - 48,24% desde o piso do ano, o preço de R$ 1,5590 estabelecido no dia 1º de agosto - , os "vendidos" amargam pesadíssimos prejuízos diários. Estes são mitigados pelas posições "compradas" à vista, registradas no BC. Como os bancos são a contraparte de exportadores que especulavam com posições "vendidas", também estão no lucro nesses contratos. Desde que as empresas paguem. Liquidamente, a posição perdedora dos bancos em câmbio oscila entre US$ 10 e 14 bilhões. Por isso, interessa a eles estancar o movimento de contínua perda. Como? Uma maneira é convencer o BC que as suas intervenções indiretas fracassaram. Não adianta tentar economizar reservas cambiais nesse momento. O argumento difundido com insistência por analistas é de que ele tem de agir à vista por meio de vendas puras. Enquanto árbitro do cabo-de-guerra, o BC reluta em queimar reservas e favorecer uma das partes. Mas não tem muita lógica a idéia de algumas mesas de operações de que o BC pretende punir as exportadoras "vendidas". Afinal, elas só assumiram essa ponta estimuladas pela própria política monetária de forte arrocho que derrubava o dólar e apreciava o real. Os contratos supriam uma parte da rentabilidade das exportações roubada pelo declínio da moeda americana. Por esse raciocínio, o BC estaria punindo justamente os que o ajudavam, via câmbio apreciado, a combater a inflação.
Para alguns operadores, o jogo está ficando muito perigoso. As empresas não querem zerar o seu prejuízo porque o preço do dólar parece artificialmente elevado. A moeda estaria, perante o real, com preço totalmente distorcido sobretudo depois que o presidente do Federal Reserve (Fed), Ben Bernanke, sinalizou a intenção de reduzir os juros americanos. Isso enfraqueceu o dólar perante as moedas globais. Como ainda não está claro que o BC irá parar de subir a Selic, o natural seria o dólar interromper sua valorização aqui. Até porque, por vários mecanismos interligados, o governo brasileiro garante a liquidez do sistema. Mas não está. Os "comprados" forçam a alta para que os "vendidos" decidam estancar suas perdas e liquidar as posições. Se as partes permanecerem irredutíveis, teme-se a quebra de alguém. É isso que o árbitro, o BC, precisa evitar. Ele precisa impedir também que uma guerra de poderosos players distorça um preço fundamental da economia como é a taxa de câmbio. Economistas já enxergaram no IGP-DI divulgado ontem uma pressão de alta proveniente do câmbio. O índice de setembro, depois da deflação de 0,38% em agosto, subiu 0,36% em setembro. O IPA, componente que representa 60% do índice cheio, já teria acusado a alta do dólar.
O mercado futuro de juros da BM&F permaneceu a reboque da deterioração dos outros mercados. Os juros dos contratos mais longos avançaram também pelo medo de que, em algum momento, os vencedores "comprados" em dólar, os hedge funds, tenham de reverter posição aqui para cobrir perdas sofridas lá fora. A taxa para janeiro de 2011 subiu bem, de 14,92% para 15,16%, enquanto o contrato mais negociado, para janeiro de 2010 avançou menos, de 14,82% para 14,86%. E ainda há os que professam a crença num reforço do aperto monetário pelo Copom para derrubar ainda mais uma demanda já fragilizada pela desaceleração global, justamente quando multiplicam os sinais de desaperto mundo afora. Ontem, além do sinal de Bernanke, o banco central da Austrália reduziu a taxa em um ponto, para 6%. No Brasil, o juro precisa cair também como forma de induzir os grandes bancos a voltar a emprestar para as instituições de menor porte.
Luiz Sérgio Guimarães é repórter de finanças

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