domingo, 20 de julho de 2014

Seca não é ideológica; mídia, é. Demissões da água em São Paulo só saem no “Valor”

http://tijolaco.com.br/blog/?p=19206

17 de julho de 2014 | 17:31 Autor: Fernando Brito
torneiratucana
São Pedro, sabe-se, não tem partido e pouca chuva não é problema ideológico, mas hidrológico.
Mas os efeitos e a capacidade de enfrentá-los é, sim, ação de Governo.
Todo mundo acompanhou a agitação, nos primeiros meses do ano, com o “terror do apagão elétrico” que a seca iria provocar.
E não provocou, nem vai provocar, embora as condições sejam, de fato, delicadas e se vá chegar à época das chuvas com um armazenamento muito baixo.
É a verdade, são fatos e fatos não são partidários.
Mas a imprensa é.
Você consegue imaginar o que seriam as manchetes dos jornais brasileiros e as indústrias estivessem demitindo trabalhadores e suspendendo investimentos por conta de uma esperada falta de luz?
Mas isto está acontecendo com a indústria paulista em função do medo de não terem água para trabalhar.
Nem a Folha, nem o Estadão divulgam a pesquisa apresentada hoje pela Fiesp.
Achei apenas no Valor a informação, junto com a notícia de que se estima que três mil empregos tenha sido perdidos com a redução da atividade das empresas pelas restrições atuais ao uso da água.
Como o jornal é voltado para empresas, não pode deixar de noticiar uma coletiva da Fiesp.
Leiam abaixo:
Levantamento divulgado pela Fiesp nesta quinta-feira durante seminário sobre escassez de água na região do PCJ mostra que, em cada três empresas, duas estão preocupadas com possível interrupção no fornecimento. A possibilidade de um racionamento de água ainda neste ano é um fator de preocupação para 67,6% das 413 indústrias ouvidas pela pesquisa realizada pelo Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos (Depecon) da Fiesp.
O levantamento foi feito entre os dias 12 e 26 de maio com 229 empresas de micro e pequeno porte (até 99 empregados), 140 de médio porte (de 100 a 499 empregados) e 44 de grande porte (500 ou mais empregados).
A pesquisa revela que são justamente as empresas de grande porte as mais preocupadas (75% ante 68,1% das pequenas e 64,3% das médias).
Já pensando nas consequências de uma interrupção no fornecimento de água, 64,9% das empresas avaliam que a medida teria impacto sobre seu faturamento: 17,9% avaliam que o impacto seria “forte” enquanto para 47% seria “pequeno”.
As empresas de grande porte foram as que mais indicaram impacto sobre o faturamento: “pequeno impacto” para 50% das grandes ante 48,9% das pequenas e 42,8% das médias; “forte impacto” para 29,5% das grandes ante 17,9% das pequenas e 14,3% das médias.
Das indústrias ouvidas, 62,2% indicaram que a produção pode ser prejudicada, mas não precisa ser interrompida em caso de racionamento. Para 11,9%, a produção é paralisada apenas no momento da interrupção e retomada em seguida. Já 12,1% responderam que a produção não seria afetada.
E das empresas que participaram da pesquisa, 54,5% não possuem uma fonte alternativa de água, enquanto 21,8% possuem e são capazes de manter a produção durante eventuais interrupções, enquanto 20,8% não dependem do sistema de abastecimento de água.
Se os “departamentos de engenharia” da nossa mídia, que analisam com profundidade todas as obras federais, fizerem uma continha simples, vão ver que a velocidade do esvaziamento do Jacareí-Jaguari está se acelerando e muito provavelmente não se atingirá o volume esperado até que a cota fatal de 815 metros seja atingida, porque haverá o isolamento do Jaguari, empoçamentos e perdas extras de evaporação com o afinamento da lâmina d’água.
Entre os dias 16 e 17 do mês passado, um a retirada de 1,21 bilhão de litros correspondeu a uma queda de seis centímetros no nível da represa.
Um mês depois, de ontem para hoje, caiu os mesmos seis centímetros com a drenagem de 920 milhões de litros.
24% menos água para o mesmo nível de rebaixamento.
Não sei se preciso desenhar para os editores dos jornais um funil, para que eles entendam que isso vai piorar mais rapidamente.
É inacreditável que seja um pequeno e desaparelhado blog quem tenha, há cinco meses, de falar que a situação é grave, gravíssima.

Brasil 2015: o desafio de mudar o tripé econômico

Do blog do Nassif

Primeiro: controle da inflação, das contas fiscais e das contas externas são medidas de responsabilidade, independentemente de qualquer conversa de tripé.
Entendido isso, vamos ao desafio de substituir as metas inflacionárias.
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Em geral, movimentos inflacionários começam com altas pontuais, provocadas por fenômenos imprevistos  que acabam se irradiando para outros preços, seja através da cadeia produtiva dos setores afetados seja pelas expectativas dos agentes econômicos.
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Historicamente, a política econômica consagrou um conjunto de ferramentas para atacar o fenômeno pontualmente, onde se manifestam as pressões inflacionárias, como estoques reguladores, medidas de impacto direto sobre o crédito etc.
As metas inflacionárias trocaram tudo isso por uma espécie de pedra filosofal.
Define-se uma meta inflacionária com uma margem de manobra. Depois, medem-se as expectativas do mercado em relação à inflação. Se estiver acima da meta, aumentam-se os juros básicos da economia. Se abaixo, diminuem-se.
O que ocorre, de fato, é que com mais juros há maior atração de dólares, provocando uma apreciação do câmbio – que reduz o peso dos chamados produtos comercializáveis (aqueles cujas cotações são em dólares). É o câmbio que segura a inflação, não a demanda.
A teoria é falsa, nefasta, afeta política industrial, pressiona o orçamento público, mas influencia as expectativas. É uma macumba planilhada.
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Se é tão nefasta assim, porque é tão incensada?
Porque seu único objetivo é preservar o capital e minimizar os estragos sobre as grandes companhias, com poder de mercado.
Quando o Banco Central aumenta a taxa Selic e aprecia o câmbio, são os seguintes os efeitos sobre os diversos agentes econômicos, supondo-se aumento da inflação e da Selic:
Investidor em US$  - ganha com o aumento dos juros e com a apreciação do real. No exemplo, mostro como sua rentabilidade pode saltar de 7,5% ao ano para mais de 26%.
Investidor em R$ - sua rentabilidade real (descontada a inflação) aumenta porque a alta da Selic, em geral, é superior à alta da inflação esperada.
Grandes empresas com domínio de mercado – tem poder para reajustar seus preços e compensar as perdas com aumento de custos. Seus ganhos financeiros crescem com juros maiores.
Empresas em mercados competitivos – perdem na redução das vendas, no aumento dos custos operacionais, na dificuldade em reajustar preços e na elevação do custo financeiro.
Pessoa física – ganha nos investimentos, perde no crediário. A médio prazo, perde com o menor dinamismo da economia.
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O Banco Central não é cobrado quando erra para cima; mas é crucificado quando erra para baixo (reduz os juros e a inflação aumenta, mesmo não tendo relação alguma). É isso que explica o comportamento burocrático do Banco, de convalidar tais teorias.
Daí que não basta simplesmente eliminar a teoria, mas desenvolver um conjunto de princípios que permitam retomar as ferramentas originais de combate à inflação sem perder o controle sobre as expectativas.

Um diagnóstico sobre a dramática situação do Sistema Alto Tietê

http://jornalggn.com.br/blog/sergiorgreis/um-diagnostico-sobre-a-dramatica-situacao-do-sistema-alto-tiete

Um diagnóstico sobre a dramática situação do Sistema Alto Tietê
Após fazer declarações confiantes a respeito da segurança hídrica do Alto Tietê por meses, pela primeira vez o governador Geraldo Alckmin admitiu, no último fim de semana, a realização de estudos para o aproveitamento do volume morto do Sistema Alto Tietê. Não é para menos, já que, em termos percentuais, o esvaziamento dos seus reservatórios é ainda maior do que o observado para o Sistema Cantareira (nos últimos dois meses, o primeiro perdeu 9,6 pontos percentuais da sua capacidade, e o segundo, 8,8 pontos) – que tem sido, desde a declaração da existência de uma crise, muito mais priorizado nas análises e matérias jornalísticas.
Essa priorização não é por menos: de fato, o Cantareira é o sistema produtor mais relevante do ponto de vista do seu alcance populacional: são 14 milhões de beneficiados, ao passo em que o Alto Tietê atende a quase 5 milhões de habitantes. Mas há, também, um problema de transparência: são muito mais abundantes os dados publicizados sobre o sistema maior, possivelmente em razão de sua gestão ser compartilhada – as informações disponibilizadas diariamente pelo Comitê Anticrise, formado por técnicos da ANA, DAEE e SABESP, são consideravelmente mais completas do que as apresentadas na seção de transparência da SABESP (também responsável pelo Alto Tietê). Talvez, por sinal, este seja um caso bem sucedido de competição administrativa entre governo federal e estadual pela transparência – o que não ocorre no caso do Alto Tietê. Talvez, também, a falta de atenção dada a esse sistema também derive do fato de abastecer zonas periféricas de São Paulo, ao passo em que o Cantareira produz para regiões urbanas centrais em vários aspectos: Consolação, Jardins, Alto de Pinheiros, Higienópolis, Vila Mariana, etc. No entanto, caso seja essa a razão, comete-se uma negligência fundamental: é na região abastecida pelo Alto Tietê onde se encontram algumas das maiores indústrias de São Paulo.
O foco deste texto, no entanto, não está na qualidade da abordagem do tema, mas sim em sua gravidade, a meu ver tão ou mais considerável do que a observada para o Cantareira. Primeiramente, vale explicar um pouco mais o Alto Tietê: trata-se de um sistema responsável pela produção de cerca de 15 m³/s (um pouco menos da metade da capacidade nominal do Cantareira). Ele é formado principalmente a partir de 5 represas: Paraitinga, Ponte Nova, Biritiba-Mirim, Jundiaí e Taiaçupeba (pela ordem da trajetória da água, até seu envio para consumo). Pode-se dizer que esse sistema é ainda mais complexo do que o Cantareira, já que conta com uma estação elevatória que é responsável por transportar a água das duas primeiras represas até a Biritiba-Mirim. Em outras palavras, só a partir daí é que o sistema funciona por gravidade. O desenho abaixo esclarece as informações acima:
Sistema Produtor Alto Tietê
Um outro aspecto importante é que, de forma geral, os reservatórios são muito menores do que os encontrados no Sistema Cantareira. O maior deles, Ponte Nova, tem uma capacidade útil de 289,85 hm³ (pouco mais de 1/3 do o Jaguari-Jacareí, o maior reservatório do Cantareira, pode abrigar). Ele é seguido pelos muito menores Taiaçupeba (81,75 hm³), Jundiaí (74,1 hm³), Paraitinga (37,1 hm³) e Biritiba-Mirim (34,4 hm³). Na medida em que envolve a coordenação de vários reservatórios pequenos por meio de estratégias distintas (bombeamento e gravidade), de fato a gestão do Alto Tietê contém desafios particulares.
Do ponto de vista do controle social, então, seria fundamental contar com os dados desagregados para cada barragem, para que o cidadão tenha condição de entender a gravidade real do problema. Infelizmente, conforme comentado, esses dados não estão disponíveis na transparência ativa da SABESP. No entanto, o pouco conhecido Sistema de Alerta a Inundações (o SAISP – falei dele no último artigo, sobre o racionamento noturno que muito provavelmente ocorre no Cantareira) nos apresenta, em tempo real, os dados referentes às cotas (altura da água em metros) de cada reservatório. Além disso, o Volume 4 do Relatório do Plano da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê (disponível neste link:http://www.fabhat.org.br/site/images/docs/volume_4_pat_dez09.pdf) nos indica alguns dos dados mais relevantes a respeito da capacidade de cada reservatório. Após fazermos a regressão da curva, conseguimos chegar à quantidade de água existente em cada um deles, a cada centímetro de queda ou elevação de nível.
E os dados nos mostram que a situação do Alto Tietê é ainda mais dramática do que parece, conforme a tabela abaixo (dados de 17/07, por volta das 15 horas):
Volume Útil e Capacidade Atual dos Reservatórios do Alto TietêA análise do histórico recente nos mostra que a SABESP tem tentado preservar os dois primeiros reservatórios; ao mesmo tempo, observamos que o Jundiaí se encontra praticamente vazio. Como as diferenças de altura entre as três últimas represas são muito pequenas (os mínimos operacionais são, respectivamente, de 752,5 metros, 748,42 metros e 739,5 metros) e elas funcionam por gravidade, não sabemos se estão sendo capazes de transferir água uma para a outra com o que se costuma chamar de “maior capacidade de transporte possível”. Vale comentar, aqui, que foi essa situação, na verdade, que levou à antecipação, ao máximo viável, da instalação das bombas para a extração do volume morto do Jaguari-Jacareí (a diferença das cotas mínimas operacionais entre esse reservatório e o Cachoeira é de menos de 9 metros e, em meados de Maio, a iminência do esgotamento do reservatório maior reduziu o diferencial para cerca de 5 metros, reduzindo a vazão máxima de transferência de 33 m³/s para apenas 12 m³/s – o que, se continuado, levaria à rápida falência do Cantareira ainda antes do fim do volume útil por significar o esvaziamento das demais represas – algo não percebido pela imprensa mainstream). A questão complicada é que, diferentemente do notado para o Cantareira, aparentemente não existem estudos para identificar, no Alto Tietê, o impacto do esvaziamento dos reservatórios na diminuição das vazões máximas. É provável que isso jamais tenha sido, na verdade, aventado para esse sistema – ao passo em que, no caso do Cantareira, relatórios com esse interesse foram desenvolvidos após a iminência da catástrofe de 2004 (agora repetida e incrivelmente aprofundada).
Mais grave, no entanto, é a seguinte circunstância: a Estação Elevatória de Biritiba tem capacidade de transportar, no máximo, 9 m³/s de água – 60 % da vazão atualmente disponibilizada pelo Alto Tietê (um pouco menos, até, se pensarmos que 2,1 m³/s estão sendo enviados para poupar o Cantareira – imaginamos que Alckmin não está retirando água dos beneficiários do Alto Tietê, e sim aumentando provisoriamente a vazão de retirada, mas tudo é possível no mundo da gestão sem transparência). Ou seja: se os reservatórios após a Elevatória secarem, então o racionamento não só é absolutamente obrigatório – é uma imposição física.
É possível, então que, a partir do agravamento do cenário – notadamente nas três barragens supracitadas –, Alckmin foi forçado a rever o discurso, autorizando a realização de estudos para a extração do volume morto do Alto Tietê, a la Cantareira. Mais uma vez, emerge a polêmica de se retirar uma porção de água que, sabidamente, funciona para manter o sistema vivo, como uma capa protetora do ecossistema – e Alckmin, ao declarar que a “reserva existe para ser usada”, conforme esta matéria da Folha de 21 de Março (http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/03/1428326-reserva-e-para-se...), mostra que não apenas desconhece noções básicas de meio ambiente, mas também que pouco se importa para elas, dada a autorização dada para a exploração desse volume a meses do período eleitoral. E, mais do que isso, como marca do imenso despreparo gerencial desse governo – que permite que a crise hídrica chegue a esse ponto tão historicamente negativo –, esses estudos serão realizados pela primeira vez. E, pelo contexto dramático, ocorrerão no afogadilho, a toque de caixa, justamente quando estamos lidando com uma situação que afeta tão direta e literalmente a vida das pessoas.
Os dados nominais a respeito da quantidade de água existente abaixo dos volumes operacionais dos cinco reservatórios são os seguintes (também conforme o relatório supracitado):
Volume Morto de Cada Reservatório do Alto Tietê
É possível notar que esse volume morto hipotético é consideravelmente menor do que o existente para o Cantareira, tanto em termos absolutos como relativos. No sistema maior, a “reserva técnica” é de aproximadamente 510,89 hm³, algo como 34,23% da capacidade total do Cantareira. Já no Alto Tietê, esse volume, como vemos acima, é de 119,35 hm³ (18,75% da capacidade total desse sistema). O que nós percebemos, em um primeiro momento, é que a quantidade de água eventualmente disponível situada abaixo da cota mínima operacional nos reservatórios Paraitinga e Taiaçupeba é bastante irrelevante. Em sendo possível extraí-la (algo que, conforme comentado, ainda não sabemos), duraria possivelmente menos de 10 dias. Com relação aos demais reservatórios, também não são significativos, o que potencialmente demandaria a rápida transferência das bombas de um para outro, bem como a construção de três “puxadinhos” como os realizados para o Jaguari-Jacareí – que foi entregue, ao contrário do anunciado, bastante incompleto (com metade das bombas em operação), após dois meses de obras; e, até hoje, não sabemos se as edificações necessárias para a colocação das bombas foi concluído para o Atibainha.
É preciso observar, ainda, que mesmo no que se refere aos dados disponibilizados no relatório comentado acima (e que foram utilizados para as estimativas de cálculo deste artigo), não se sabe, ao certo, quais são as cotas mínimas quando o volume morto se aproxima de zero. Se no caso do Paraitinga e do Taiaçupeba essas informações realmente não são relevantes, com relação aos outros três reservatórios esses dados são essenciais para a determinação da efetiva capacidade de bombeamento. Isso porque se imagina que 1) não se bombeia até o “0”, sabendo-se que tal operação significaria revolver barro e toda sorte de detritos – inclusive, potencialmente, os metais pesados que aí se situam –, evidentemente pondo em risco real a população; 2) represas excessivamente profundas dificultam ou até inviabilizam a sucção das bombas – não é à toa que, no caso do Cantareira, a autorização da retirada para o Jaguari-Jacareí foi de 5,8 metros, e para o Atibainha, de 6,14 metros –; se as represas forem “funis”, então o risco de empoçamento é significativo (e simplesmente não sabemos o relevo desses solos – pelo menos publicamente). Relatórios mais antigos, como um apresentado em 2002, expressam grande divergência entre SABESP e DAEE até mesmo com relação à capacidade máxima de cada reservatório – ao contrário do Cantareira, que possui essas informações discriminadas em seus relatórios e documentos de outorga.
Nos últimos 30 dias, o Alto Tietê perdeu praticamente 1 bilhão de litros de água por dia. Em termos de perda por segundo, são 11,57 m³/s. Em outras palavras, de no mínimo 15 m³/s que são distribuídos à população – e digo “no mínimo” imaginando que não ocorra diminuição de pressão durante as madrugadas, conforme o eventualmente observado no Cantareira –, apenas 3,43 m³/s estão entrando em razão da vazão natural dos rios (mais chuvas). Alckmin, portanto, dispõe de um cenário cada vez mais crítico, considerando-se a tendência de redução ainda mais significativa da entrada de água para o mês de Agosto (assim como para o Cantareira, no Alto Tietê as mínimas históricas de vazões também ocorrem nesse mês, conforme o relatório supracitado). Esse cenário é ainda mais grave diante da relevância modesta do volume morto à disposição e, principalmente, em razão do já comentado limite físico de transporte de água da Estação Elevatória.
O que temos, em termos numéricos, é o seguinte: a partir dos níveis de perda observados para os últimos 30 dias, caso a SABESP mude sua estratégia e passe a buscar evitar o colapso dos três últimos reservatórios – para tentar manter o sistema todo unido, sem limitação de vazões e sem racionamento, portanto –, seria preciso, então, realizar o envio máximo de água por meio dos reservatórios Paraitinga e Ponte Nova até a Estação Elevatória, 9 m³/s (limite, por sinal, não só físico, mas também estabelecido na outorga do sistema no que se refere à retirada de água dessas represas), e tentar produzir uma perda de apenas cerca de 2,6 m³/s a partir dos três reservatórios subsequentes (resultando na perda total atual, de 11,57 m³/s). Nesse cenário, e: 1) admitindo, de forma otimista, que essas pequenas represas não teriam perdas de vazão conforme seriam esvaziadas; 2) que a vazão de entrada dessas três represas seja, agregadamente, de 1,5 m³/s; 3) que a vazão de entrada das outras duas represas seja de 1,9 m³/s (totalizando o ingresso médio atual do último mês, aproximadamente 3,4 m³/s); 4) que as vazões sejam destinadas para as represas que se aproximam do esvaziamento, de modo a preservar sua sobrevivência; 4) que a SABESP respeite a determinação da outorga de continuar a descarregar para os rios (já que eles alimentam outros sistemas produtores e outras cidades, que precisam dessa água) as vazões mínimas de 0,5 m³/s do Paraitinga, 0,3 m³/s da Ponte Nova, 0,1 m³/s do Jundiaí e 0,7 m³/s do Taiaçupeba, temos o seguinte (vejam quantas premissas, em geral bastante positivas diante do atual contexto):
·         O diferencial entre a vazão de entrada nas três últimas represas e aquela que é obrigada a ser descarregada é de 0,4 m³/s nessa hipótese (secando ou não as represas);
·         O volume útil da represa Taiaçupeba acaba em 70 dias. Com a pequena entrada diária acumulada no período, chega-se a mais 10 dias, em um total de 80 dias;
·         A seguir, a represa Jundiaí seca em 31 dias. Com mais 4 dias de vazão com as entradas diárias, persiste por um total de 35 dias;
·         Finalmente, a represa Biritiba tem seu volume operacional esvaziado em 30 dias. Novamente, com as entradas diárias acumuladas, chega a 34 dias.
·         No total, então, a vazão de 2,6 m³/s, a partir de todos os pressupostos apontados, pode ser mantida nesse conjunto de 3 represas por um período de 149 dias;
·         Já com relação às duas represas acima da Estação Elevatória, supõe-se que o diferencial entre as vazões de entrada e aquelas que precisam ser despejadas no rio por força da outorga é de 1,1 m³/s;
·         Nesse sentido, o volume útil da Ponta Nova se esgota em 99 dias. Com as afluências diárias, a represa dura mais 41 dias. No total, o reservatório continua a ser capaz de fornecer 9 m³/s por 140 dias;
·         A represa Paraitinga, por sua vez, sobrevive por 15 dias. A partir dos ingressos da vazão natural, seu esgotamento total ocorre em 21 dias;
·         Com isso, a partir da hipótese construída, essas duas represas poderiam, na melhor das condições, manter seu funcionamento por mais 161 dias.
Em síntese, então, levando-se em conta que o prazo máximo em que o Sistema Cantareira poderá continuar a funcionar de forma integrada – abstraindo-se toda a questão das implicações hidrostáticas do esvaziamento das represas que operam por gravidade, a irregularidade das vazões e uma gestão eventualmente inadequada dos fluxos (hoje, como disse, parece que são os reservatórios que são incapazes de atender a toda a produção justamente aqueles que estão sendo preservados), Alckmin tem 149 dias para finalizar os estudos sobre a viabilidade da utilização do volume morto, para comprar bombas e para fazer obras em, provavelmente, três reservatórios. Vale ressaltar que, conforme os reservatórios esvaziam, também diminui sensivelmente a vazão natural dos rios. Não é apenas uma questão de chuvas, como se sabe, mas da dinamicidade do funcionamento dos mananciais. Então não será surpreendente caso venha a ocorrer a piora das já dramáticas condições do sistema, que poderão, conjuntamente com uma gestão arrogante da crise, levar ao colapso do Alto Tietê em um prazo ainda muito menor do que o apontado.
Vale dizer, reforçando o argumento, que uma gestão inadequada do Alto Tietê nesse momento será devastadora para a sua continuidade como sistema produtor. Se, em uma conta simples, percebemos que toda a água pode acabar em 118 dias a partir de uma gestão “laissez-faire” do sistema (e a hipótese acima dá a sobrevida de 1 mês mais ao conjunto de reservatórios, na consideração mais otimista sobre a situação), é possível notar que a preservação das duas represas “de cima” – que ocorre hoje – poderá fazer com que, em não mais de um mês, o sistema deixe de abastecer algo como 40% da sua capacidade, implicando inevitavelmente no racionamento. Isso pode ocorrer, por exemplo, se os pouco mais de 29 hm³ de Biritiba, Jundiaí e Taiaçupeba forem todos consumidos em detrimento da redução máxima da vazão de saída de Paraitinga e Ponte Nova. É essa a dimensão da iminência da tragédia.
Enfim, mais uma vez ressaltamos que a crise que ocorre hoje – em mais um sistema importantíssimo de produção de água – é uma crise hídrica, mas é também, e especialmente, uma crise de planejamento, de gestão, de transparência, e social de primeira ordem, por todo o conjunto de desrespeitos à vida que representa a falência da produção de água em um Estado tão rico em termos financeiros, em conhecimento técnico, em histórico, em outras áreas, de construção de políticas públicas transparentes e participativas e, por que não, até mesmo em disponibilidade hídrica potencial, dada a relevância em contexto mundial de aquíferos como o São Paulo e o Guarani. Tendo Alckmin, seu governo, seus órgãos e seu partido – há 20 anos no poder – jogado fora tamanhas oportunidades, resta agora torcer para que o cenário “São Paulo sem água”, cada vez mais próximo, tenha o menor impacto possível na cidadania – o que é improvável diante da centralidade da água para a vida.
Sérgio Roberto Guedes Reis

sábado, 19 de julho de 2014

Pesquisa Globo-Datafolha e a igualdade entre diferentes

Dilma pode ganhar já no 1º turno, mas se não ganhar, pode dar Aécio no 2º turno ou Eduardo Campos ou até Dilma mesmo.
Se essa conclusão é meio, digamos assim, inconclusa, é porque a pesquisa Globo-Datafolha de 17/07/2014 para as eleições presidenciais traz uma contradição em si. E um hiato não explicado entre os gráficos de inteção de votos do primeiro e do segundo turno que acaba por descrever a situação proposta acima. 
Dilma ganha no 1º turno.
Já de algum tempo percebe-se uma estabilização nas intenções de voto para as eleições presidenciais de 2014. Dilma com algo em torno de 37%, Aécio 20%, Eduardo Campos próximo de 10% e Pastor Everaldo consistentemente em torno de 4%.
Basta reparar no ângulo da reta que resolve os pontos.
Isso daria a vitória a Dilma já no primeiro turno das eleições. O empate técnico - Dilma 36% X Todos os outros 36% - é na verdade um ruído estatístico provocado pela presença de 7 candidatos nanicos, com 5 deles pontuando. Na campanha eleitoral não serão sequer notados, dado o tempo exíguo de televisão que terão.
Há aqui um dado relevante. Existem 3 estratos diferentes nesses dados. O percentual de Dilma é praticamente 60% maior do que o de Aécio, o de Aécio é mais que o dobro do de Eduardo Campos. De Eduardo Campos para baixo, os valores são pequenos demais para serem distintos.
Logo, caso houvesse segundo turno, a polarização se daria entre Dilma e Aécio, mas não é isso que os gráficos abaixo irão mostrar.
Dilma perde no 2º turno.
Quando se analisa os gráficos de intenção de votos no segundo turno, o que se nota é uma contínua queda de Dilma com seus votos perdidos sendo consistentemente ganhos por Aécio e Eduardo Campos indistintamente.
Basta reparar no ângulo da reta que resolve os pontos.
Esses dados são incoerentes com a estabilização e com a situação estratificada mostradas nos gráficos do primeiro turno. O eleitor, na hipótese de um segundo turno, parece não distinguir Aécio de Eduardo Campos, mas há uma enorme diferença entre eles no primeiro turno.
Além disso, Aécio e Eduardo Campos dão saltos no segundo turno que são inconsistentes com as preferências eleitorais do primeiro turno e com o total de indecisos que é de 14%.
Aécio obtém um acréscimo de 20 pontos percentuais, um salto de 100%, e Eduardo Campos aumenta fantásticos 30 pontos, um lançamento espacial de 375%. Dilma acrescenta apenas 8 pontos percentuais aos que já possui, ou um passinho à frente de 25%.
Então, qual é a explicação para tal diferença? A Folha tenta:
“A oscilação negativa de Dilma no primeiro turno e a aproximação de seus rivais em simulações de segundo turno são coerentes com o aumento do percentual de eleitores que julgam o atual governo como ruim ou péssimo”.
Isso, no entanto, não dá conta de explicar a discrepância entre as intenções de votos do primeiro e do segundo turno. Mesmo porque, aqui também o quadro é próximo da estabilidade.
A única explicação possível seria na base do "everybory hates Dilma".
Ou seja, como uma segunda opção, todos os eleitores de Eduardo Campos votam com Aécio e todos os eleitores de Aécio votam com Eduardo Campos. Ambos são "adversários-aliados" há muito pouco tempo para já terem formado tal grau de identificação. E ainda tem se que parte dos eleitores de Eduardo o são, na realidade, de Marina Silva. Vê-los votando no PSDB seria muito interessante. Além do mais, deveriam chamar para si todos os votos dos indecisos.
Fácil? Então, lembremos da pesquisa de 15 dias atrás, quem está positivamente na cabeça do eleitor é Dilma e não seus adversários.
Continua a questão, se nada muda, por que tudo muda do primeiro para o segundo turno?
Enfim, é aguardar a próxima pesquisa.
Se os dados desta se mantiverem, então, Dilma continuará vencendo no primeiro turno, mas será ultrapassada por ambos, Aécio e Eduardo Campos, no segundo. E aí, ou dormiremos com um barulho desse ou a Globo-Folha nos trarão uma explicação.

O Datafolha e o milagre da multiplicação dos votos nos nanicos

Por Marco St.
Sobre a última pesquisa Datafolha algo me intrigou (o que não é muito difícil por se tratar do Datafolha....).
Tentando ignorar o fato de que simularam um "segundo turno" que a própria pesquisa atesta que não vai ter, peço atenção à este "detalhe" escamoteado nos "1%".
Segundo o instituto da Família Frias os candidatos nanicos tem somados 8% das intenções de voto.
Sabemos que 1% do eleitorado brasileiro corresponde a pouco mais de 1,4 milhão de eleitores
Desta forma o Datafolha nos diz que Zé Maria do PSTU ou Eymael do PSDC, por exemplo, tem cada um, a formidável quantidade de 1,4 milhão de eleitores. Verdadeiros Nanicões!
Somados os nanicos do Datafolha eles tem mais de 11 milhões de eleitores....
Não é incrível?
Mas incrível mesmo é consultar a última eleição em 2010. Lá podemos conferir que JUNTOS, os nanicos tiveram 1 milhão e 100 mil eleitores. Na época, 1% do eleitorado.  Olhem aqui:http://t.co/qVxjxtUQXJ
Tirando o Plínio (o "Pastor Everaldo" daquela oportunidade), os nanicos, no máximo, conseguiram 90 mil votos. Por isso que, inclusive, são chamados de "nanicos", não?
Não entendo nadinha de estatísticas, mas tem cerca de 10 milhões de votos aí que o Datafolha diz que são dos nanicos, mas a realidade mostra que não são.
Repito: Datafolha dá 1,4 milhão de votos para cada nanico.
Realidade em 2010 contabilizou cerca de 90 mil votos para cada um deles.
A diferença é muito, muito grande. Bem além dos 2% para cima ou 2% para baixo....

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sábado, 12 de julho de 2014

Finalmente começa a duplicação da BR-381

O trecho da BR-381 entre Belo Horizonte e o Vale do Aço (Ipatinga) é muito perigoso. Toda vez que passei por lá vi pelo menos um acidente. O governo já devia ter duplicado esse trecho há décadas, mas antes tarde do que nunca.

Eu passei lá na terça voltando do leste de minas. A obra já começou, já tem túnel quase pronto, início de obras em alguns pontos. Eu desisti de ir de carro. Só voltarei a ir de carro daqui a uns 3 ou 4 anos quando a obra acabar.

Do Blog do Planalto
http://blog.planalto.gov.br/69376/

Duplicação da BR-381/MG atrairá empresas e investimentos, afirma prefeita de Ipatinga
Nesta segunda-feira (12), a presidenta Dilma Rousseff assina, em Ipatinga (MG), a ordem de serviço para início da duplicação de cinco lotes (199,1 km) da rodovia BR-381/MG. O investimento total será de R$ 2,5 bilhões do Orçamento Geral da União, sendo R$ 1,33 bilhão referente aos lotes com ordem de início hoje.
O projeto conta com 11 lotes, entre Belo Horizonte e Governador Valadares (303 km), além da Variante de Santa Bárbara. Além de novas pistas e restauração da atual, está prevista a construção de cinco túneis, 34 pontes, 66 viadutos, 31 passarelas, 150 paradas de ônibus e 133.800 metros de defensas.
A BR-381/MG vai de Belo Horizonte a Governador Valadares, passando pelo Vale do Aço, e é o principal eixo de transporte do leste de Minas Gerais. Ipatinga, com 250 mil habitantes, é pólo central da região. Para a prefeita da cidade, Cecília Ferramenta, a obra irá atrair novas empresas e investimentos para a região metropolitana, que tem cerca de 600 mil habitantes.
“A duplicação é uma luta antiga e necessária. Muitas vidas são tiradas nessa rodovia. A cidade e a população dependem da estrada para o dia-a-dia”, defende Ferramenta.
A Usiminas, que tem sede em Ipatinga, é a maior siderúrgica de Minas Gerais e movimenta cerca de 500 caminhões por dia na rodovia. A duplicação também facilitará o acesso ao complexo portuário de Tubarão (ES) e o fluxo de importação/exportação.
Duplicação da BR-381-MG-01 blog

Os programas de governo dos candidatos presidenciais

Dilma:
https://programadegoverno.dilma.com.br/wp-content/uploads/2014/07/Programa-de-Governo-Dilma-2014-RGB1.pdf

Aécio:
http://static.psdb.org.br/wp-content/uploads/2014/07/diretrizes-gerais-plano-de-governo_aecio_neves-3.compressed.pdf

Campos:
http://www.psb40.org.br/imprensa/programa.pdf